Uma das grandes conquistas que a criança do Mini-Maternal geralmente vivencia é o processo de desfralde, que deve ser feito nessa época. Isto porque a literatura nos mostra que a criança está fisicamente preparada para o desfralde próximo aos dois anos de idade, ainda que seja particular de cada criança esse momento.
Embora algumas já possam identificar, antes disso, se fizeram xixi ou cocô e até solicitarem que seja retirada a fralda para utilizarem o banheiro, é em média próximo dos dois anos que os esfíncteres (músculos do ânus, vagina/pênis, responsáveis pelo controle de saída e retenção de fezes e urina) já estão maduros a ponto de permitir que o desfralde seja feito de maneira saudável e eficaz. Antes disso, é até possível que a criança consiga algumas vezes controlar os esfíncteres, porém pode falhar em alguns momentos e isso ser algo bastante frustrante.
O momento do desfralde é um marco muito importante para a criança. Tirar as fraldas não é coisa que se faça sem mais nem menos, só porque “ela tem que aprender”. É um processo que exige delicada atenção, para que não se torne uma das primeiras violências para a criança.
Mas... por que tirar as fraldas? “Porque os adultos resolvem?” “Porque está na idade?” “Porque sai muito caro comprar fraldas?” “Porque a criança já demonstra que não gosta de sentir-se suja ou molhada?” “Porque todo mundo tem de aprender?” “Porque se não souber usar o banheiro, não será aceita na sua escolaridade, ou seja, Creche ou Educação Infantil?”
Como se vê, várias justificativas podem ser lançadas para o início do desfralde, algumas simplesmente por motivos que facilitam a vida dos pais e outras que levam também em consideração alguns incômodos e aquisições da criança. No entanto, é forte o fator cultural. Afinal, a criança de 2 anos já não é mais um bebê, ou seja, começa a ser inserida num grupo maior, que é a sociedade, em que regras coletivas são levadas em conta, tendo a criança que começar a se adaptar a algumas delas. Existe sim então uma intromissão da sociedade, que educa para seguir suas regras. O fator cultural fica claro quando se compara a criança rural, deixada apenas de camisa ou blusa para aprender a urinar e evacuar no quintal, com a criança urbana fortemente pressionada a usar o vaso sanitário e às vezes até mesmo submetida a castigos se sujar ou molhar móveis e tapetes de sua casa.
Enquanto o bebê usa fraldas, a princípio ele urina e evacua de maneira instintiva e não controlada. Assim, quando sua bexiga ou intestino estão cheios, o organismo automaticamente elimina a urina ou as fezes. No entanto, pertos dos 2 anos de idade já é possível para a criança começar a sentir e a controlar os músculos do ânus e vagina/pênis (esfíncteres). A criança começa então a dar alguns sinais de que está começando a ter este controle: quando pode diferenciar se fez xixi ou cocô; quando avisa o adulto que fez xixi ou cocô; quando segura por algum tempo estas necessidades, mantendo por um período diferente do de costume a fralda seca, entre outros.
No entanto, vale ressaltar que não é apenas a parte fisiológica (dos músculos) que determina a evolução do desfralde. Poder controlar suas necessidades significa para a criança também poder controlar (ou às vezes perder o controle) de algumas coisas. Assim, agora o cocô ou xixi também são mais um meio de a criança perceber que deixa a mãe, o pai ou os cuidadores satisfeitos ou insatisfeitos e então ela pode começar a usar este artifício também como uma maneira de testar algumas coisas.
Para uma das linhas da Psicanálise, emocionalmente a criança sente que o cocô é uma de suas primeiras produções, ou seja, serve como algo que ela produz e “dá” para o mundo, que neste momento é representado pelas pessoas que estão próximas a ela. Assim, ela pode escolher quando dar e quando não dar. E às vezes, deixar o cocô ir embora poderia significar perder algo que é seu e, então, trazer algum sofrimento. No entanto, isso não ocorre de maneira consciente para a criança e não pode ser entendido, portanto, como teimosia ou algo parecido. Se a criança percebe que suas necessidades são recebidas com repulsa e nojo, isto pode dificultar a naturalidade do processo de desfralde.
É comum também que algumas crianças tenham muita dificuldade em usar o vaso sanitário no início do desfralde ou queiram fazer xixi ou cocô de maneiras bastante específicas ou apenas na fralda. Algumas vezes a criança recusa-se energicamente a usar o vaso sanitário, embora preencha todas as condições que citamos. E possível que ela tenha fantasias sobre suas fezes como algo que faz parte de seu corpo, que são sua propriedade e não possa deixá-las sob as ordens dos adultos. Também é possível que a criança tenha fantasias em relação às descargas de água da privada ou mesmo medo de ser levada por essa água; este é mais um motivo para o uso do troninho nesta fase de sua educação.
Estes comportamentos são naturais e nestas situações podem valer alguns incentivos na tentativa de mostrar à criança que “tudo bem” deixar as fezes e urina irem embora e que isso é natural e acontece com todos. Dar tchau ao cocô e/ou ajudar a dar descarga podem ajudar nesse sentido. No entanto, caso estas situações se prolonguem muito ou estejam sendo fator de muito sofrimento para a criança, é importante procurar auxílio para alguma orientação específica. Em algumas situações este medo deve ser respeitado e o processo de desfralde ser iniciado um ou dois meses mais tarde.
Para que a educação dos esfíncteres não se torne agressiva ou rígida, podendo vir a gerar sintomas emocionais na criança, algumas condições precisam estar presentes:
- que a criança tenha horários relativamente regulares para evacuação, já que o treinamento inicial é o do controle do esfíncter anal;
- que a criança tenha capacidade de perceber a sensação de estar precisando evacuar, ou seja, de estar com o intestino repleto, sem o que não poderá indicar essa necessidade, nem se dirigirá ao local habitual;
- que a criança tenha capacidade de identificar as fezes pelo nome familiar usado, tanto compreendendo a palavra dita pelos adultos, como sabendo dizê-la (“cocô” por exemplo);
- que o adulto tenha em mente que urinar e defecar são atos necessários e importantes para a saúde do bebê (e de todos) e que não deve demonstrar que se repugna com isso nesse primeiro momento. Deve orientar a criança com palavras simples, algumas vezes até elogiando o ato da criança de querer fazer cocô ou o próprio cocô;
- que o adulto compreenda que a evacuação fora do vaso sanitário é perfeitamente normal e não caso para punições. Para a criança, o cocô é algo que vem de dentro dela e representa um “presente” seu para o meio (principalmente para as figuras de amor da criança – mãe / pai / cuidadores);
- que a criança tenha capacidade de reter (segurar) as fezes voluntariamente por certo período de tempo.
- Importante: que a criança inicie o desfralde por completo, ou seja, na escola, em casa, na casa da avó... ao mesmo tempo. O fato de a criança ficar com a fralda em alguns momentos e em outros não, dificulta o processo, pois a confunde.
É importante saber que no desenvolvimento de todas as crianças existe uma fase intermediária em que a criança tenta evacuar, abrindo o esfíncter voluntariamente, mas não consegue defecar e logo depois levanta-se do vaso ou privadinha e evacua reflexamente, isto é, involuntariamente. Isto pode ser considerado “teimosia” pelos adultos, mas nada mais é do que uma etapa natural de seu aprendizado.
A imitação de outras crianças pode ser uma ajuda para este treinamento. A melhor posição para a criança defecar no início do desfralde é sentar-se bem equilibrada e próxima do solo, acocorada, o que facilita o esforço muscular de evacuação. Para isso, o urinol fixado em cadeirinha (popularmente conhecido como “troninho”) é o melhor utensílio. A criança não deve ser obrigada pela força a sentar-se, nem a permanecer longo tempo sentada.
Em média, dentro de dois a três meses a criança consegue aprender a evacuar no urinol e só então será ensinada a usá-lo também para urinar, sempre sem rigidez, sem uso de castigos e humilhações. A maioria das crianças aos 2 anos de idade completa o aprendizado do controle voluntário de evacuação e micção, no que se refere ao período diurno. O controle noturno geralmente não precisa ser ensinado, porque aparece com a maturação da bexiga, que passa a suportar um volume cada vez maior de urina e com a maturação social da criança, que passa a querer dormir sem fraldas, como os irmãos mais velhos ou adultos da família.
Em média, aos 3 anos e meio e em maioria aos 4 anos a criança controla voluntariamente sua micção durante a noite. É muito raro nessa fase que seja necessário acordar a criança para urinar à noite, com o objetivo de mantê-la seca.
Se essas restrições impostas pela cultura respeitarem a individualidade da criança, seu ritmo de maturação e sua vida de fantasia, não existirão riscos de problemas futuros em sua vida emocional. A rigidez, a exigência excessiva, a educação tentada sem consideração por suas capacidades, entretanto, configuram a primeira violência sofrida por muitas crianças.
Aqui no Colégio Prótons, estamos preparados para realizar o desfralde, levando em consideração todos estes cuidados. Assim que seu filho iniciar este processo é importante que:
- a equipe seja comunicada;
- sejam enviadas para a escola diversas opções de troca de roupa;
- que a criança tenha na mochila várias opções de calçado ou calçados de plástico ou borracha (tipo “Melissa” ou “Havaianas”), que possam ser lavados e utilizados após uma situação em que a urina escape;
- que a criança venha para o Colégio sem fraldas, com calcinha ou cueca;
Algumas sugestões para casa:
- evite dar líquidos após às 16 hs (dê estritamente o necessário, preservando a rotina de alimentação da criança);
- coloque o relógio para despertar e, por volta das 2 horas da manhã, com seu filho dormindo, coloque-o para urinar. O som de uma torneira aberta o incentivará a urinar mais rapidamente;
- retorne com seu filho à cama, se possível sem acordá-lo;
- pela manhã, quando seu filho acordar sequinho, deverá receber muitos elogios, que de forma gradual e acumulativa só irão reforçar o sucesso do desfralde realizado no Colégio e em casa.
Estamos à disposição para qualquer orientação ou esclarecimento.
Atenciosamente,
A Direção
MATERIAL ELABORADO POR:
• Flavia Romero Luz Pejon – Psicóloga e Orientadora Educacional do Colégio Prótons
• Roseli Aparecida Romero – Psicóloga, Diretora e Orientadora Educacional do Colégio Prótons
• Suelly D. J. Romero Luz – Pedagoga, Diretora e Orientadora Pedagógica e Educacional do Colégio Prótons
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:
“Manual de Psiquiatria Infantil” - J. de Ajuriaguerra - Profeseur au Coilége de Ffrance
“Coleção Ser Criança” - Rio Gráfica e Editora Ltda
“Coletânea de Textos” - Pediatria — Suplemento Feminino – O Estado de São Paulo.
“Série Mini Imagino - Seu filho de 3 anos - Orientação Pedagógica para os Pais.”
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